Jornalismo de Dados

O uso de dados aumenta a credibilidade e qualidade das notícias

A revolução da incorporação de dados no cotidiano jornalístico permite a produção de informações mais valiosas, confiáveis, completas e adaptadas à modelos visuais que facilitam a compreensão de evidências pelos leitores.

Navegue Bem | Caso não saiba o que são dados abertos, aproveite primeiro as seções que explicam o assunto (as noções básicas e a História no País). Além disso, listamos aqui o tronco essencial das principais plataformas, mas dedicamos seções especiais para detalhar ainda outras, voltadas para Fiscalização Cidadã, Finanças Públicas, Eleições, e também iniciativas colaborativas da sociedade civil

O Brasil é o 9º país no ranking mundial de dados abertos, e movimentos como outros milhões são coletados por empresas, rastreados por think tanks e acadêmicos, e obtidos por repórteres por meio de solicitações da Lei de Liberdade de Informação (embora nem sempre sem batalha). . Você também pode monitorar respostas da lei de Acesso a Informação, iniciativas como o Volt Data Lab e relatórios emitidos por organizações privadas. A Controladoria Geral da União mantém em seu website um banco de respostas à pedidos, assim como a Transparência Brasil/Abraji.

 

Essa grande quantidade de informações pode ser uma fonte para alavancar a qualidade do trabalho jornalístico. Para obter informações consistentes e inteligíveis, é preciso aliar ferramentas tecnológicas ao faro jornalístico, que permite encontrar histórias escondidas por trás dos números. Por isso, os jornalistas precisam se capacitar para aprender a identificar dados importantes, relacionar diferentes fontes e extrair conclusões significativas da investigação.

Embora a prática não seja nova, o volume de dados é algo sem precedentes na história - nos tempos atuais, chegam de várias frentes e em grandes quantidades. O volume enorme de informação disponível cria um problema: dar um sentido a todo esse material. Além do catálogo federal, o portal de dados de Recife, o primeiro de uma capital no país, contém mais de 240 bases e o do governo estadual, outras xx.

 No momento em que a crença nas notícias e em um conjunto compartilhado de fatos está em dúvida todos os dias, o jornalismo de dados pode iluminar o caminho para nós, trazendo fatos e evidências à luz de uma maneira acessível. ajuda a diminuir a polarização, porque sai do espectro da opinião, de um lado contra o outro, e mostra os dados e o contexto para que o debate seja feito 

O jornalismo de dados já tem uma trajetória longa nos meios de comunicação. A diferença é que, agora, ele tem se fortalecido como nunca e é uma forte tendência para o futuro.

□ História e Panorama

Revelar ao mundo algo que lhe interessa profundamente e que até então ignorava, mostrar-lhe que foi enganado em algum ponto vital a seus interesses temporais ou espirituais, é o maior serviço que um ser humano pode prestar a seus semelhantes." (John Stuart Mill)

Como podíamos esperar, a prática do uso de dados para incrementar a reportagem é tão antiga quanto a própria existência dos dados. Como Simon Rogers aponta, o primeiro exemplo de jornalismo de dados no The Guardian remonta a 1821. Foi uma lista, obtida de fonte não oficial, que relacionava as escolas da cidade de Manchester ao número de alunos e aos custos de cada uma. De acordo com Rogers, a lista ajudou a mostrar o verdadeiro número de alunos que recebiam educação gratuita, muito maior do que os números oficiais revelavam.

Outro exemplo seminal na Europa é Florence Nightingale e seu relato fundamental, “Mortalidade no Exército Britânico”, publicado em 1858. No seu relato ao Parlamento inglês, ela usou gráficos multicoloridos para defender o aperfeiçoamento do serviço de saúde do exército britânico. O mais famoso é o seu gráfico crista de galo, uma espiral de seções em que cada uma representa as mortes a cada mês, que destacava que a imensa maioria das mortes foi consequência de doenças preveníveis em vez de tiros.

De fato, os repórteres usaram dados para manter o poder responsável por séculos, como atesta uma investigação conduzida por dados que descobriu gastos excessivos de políticos, incluindo o então congressista Abraham Lincoln.

Jornalismo de dados (ou jornalismo guiado por dados) como o conhecemos atualmente é um termo que surgiu na metade da década de 2000 e que se refere às práticas jornalísticas que utilizam dados como base para gerarem notícias - foi utilizado pela primeira vez pelo desenvolvedor de software Adrian Holovaty, em 2006, no texto “A fundamental way newspaper sites need to change”, em que  expressa a importância de usar técnicas de gerenciamento de dados na redação dos jornais, advogando a necessidade de o jornalista se capacitar para explorar o Big Data. No cenário hiper-tecnológico de hoje, o caminho predito por Holovaty tornou-se indispensável.

 

Apesar de o termo ter sido cunhado recentemente, pode ser considerado um desenvolvimento de outros dois conceitos: jornalismo de precisão (JP) e reportagem assistida por computador (RAC) - propostos entre o final da década de 1960 e início de 1970, e que foram surgiram no contexto dos avanços tecnológicos (o projeto de 2011, Reading the Motins do Guardian, chegou a aplicar as técnicas de relatórios assistidas por computador de Phil Meyer na década de 1960 a um surto de violência em toda a Inglaterra, um ano antes da publicação da primeira edição do Manual de Jornalismo de Dados, que sistematizou de maneira iniciadora essa nova maneira de trabalhar, contando histórias de maneiras inovadoras).

Apesar de todas as dificuldades, em 10 anos, o jornalismo de dados passou de um exercício de reportagem de nicho para se tornar uma parte essencial das redações em todo o mundo. Para descobrir como o jornalismo de dados avançou na última década, confira uma entrevista com Simon Rogers, fundador do Guardian Datablog que publicou seu primeiro conjunto de dados em 2009 - ano que marcou também o início da revolução dos dados abertos com o lançamento do primeiro portal de dados abertos governamental do mundo: o Data.gov do governo dos EUA foi lançado em maio daquele ano com 47 conjuntos de dados. 

□ Diferenciais
  • Não são influenciáveis a interesses particulares (maior credibilidade);

  • Aumentam a qualidade das produções;

  • Evidências com base em dados e não em opiniões;

  • Transparência de produção (verificação);

  • Humanização por meio de um relato jornalístico de informações contidas em bases de dados cruas;

  • A visualização de dados ajuda a contar a história;

  • Potencializa o jornalismo investigativo.

▫ Crowdsourcing

A abertura para colaboração (crowdsourcing se tornou uma ferramenta de redação estabelecida) é uma delas e rendeu apurações importantíssimas - como detalhes de gastos de parlamentares, um relatório contabilizando número de crianças e adolescentes que morrem devido à facas (escala de crimes), e até mesmo um mapeamento de atentados terroristas em Gaza. Essa maneira colaborativa de trabalhar está no centro do que a equipe de dados faz. Em vez de focar em números ou estatísticas, usa-se dados para encontrar os assuntos sobre os quais devem se reportar, onde fazer isso, com quem conversar e que perguntas fazer (assim prega o The Guardian). Algumas das melhores peças de jornalismo de dados podem não ter números.

> José Roberto de Toledo, jornalista da Revista Piauí, explica os primeiros passos para começar a trabalhar com jornalismo de dados.

Para desenvolver conteúdos a partir de dados, o jornalista precisa levar em consideração uma série de fatores: 1) fazer a análise de dados; 2) contar com ferramentas e profissionais de programação e matemáticos - para fazer a mineração dos dados; 3) desenvolver uma apresentação criativa e detalhada (assim eles podem ser bem visualizados e interpretados pelos leitores). Confira abaixo um modelo simples, ou uma mapa visual do processo de produção do Guardian Datablog aqui.

 

Mergulhar em plataformas que já disponibilizam bastante conteúdo (como os portais de dados abertos) e também participar do ecossistema de tecnologia do estado pode ajudar a conhecer mais ferramentas, como o Python. Atualmente também já existem poderosas ferramentas gratuitas de visualização e limpeza de dados, como Open Refine, Google Fusion Tables, Many Eyes (da IBM), Datawrapper, Tableau Public, entre outras (veja uma apresentação sobre opções aqui). Nos EUA há redações como o Texas Tribune e a ProPublica, que começaram a criar operações em torno desses dados. O conhecimento da pesquisa, limpeza e visualização de dados também é transformador para a profissão de coleta de informações.

| Raspagem de Dados

  • Você também pode começar a explorar web scraping sem um profundo conhecimento de programação. Web scraping permite recolher informações a partir de sites com uma determinada quantidade de automação (em outras palavras, não ter que copiar / colar cada pequena coisa que você está procurando). ProPublica montou um Manual de Scraper que traz excelentes recursos para iniciantes que querem começar a raspar site e bancos de dados para obter informações para as suas histórias. Um web aplicativo livre para Chrome chamado Table Capture permite que você copie rapidamente tabelas de sites e cole-as em outra planilha. O Centro Knight também reuniu uma lista de ferramentas de raspagem de dados para “libertar” planilhas presas em arquivos PDF;

  • Ao trabalhar com várias planilhas, você já deve ter se deparado com um dos aspectos mais demorados do jornalismo de dados – limpar bases de dados bagunçadas. Google Refine é outro programa gratuito que unifica nomenclaturas de planilhas diferentes. ProPublica também mostra como usar o Refine para limpar seus bancos de dados;

  • 9 de Julho > projeto em raspagem e formatação de dados da AssembleiaSP. Projeto open-source de agregação de info pública dos parlamentares e servidores da casa.

| Cursos Virtuais 

  • Escola de Dados

  • DataJournalism

O DataJournalism.com foi criado pelo Centro Europeu de Jornalismo e é apoiado pelo Google News InitiativeApós 10 anos de experiência na execução de programas de jornalismo de dados. Fornecem aos jornalistas de dados recursos gratuitos, materiais, cursos em vídeo on-line e fóruns da comunidade.

  • New York Times

□ Referências Globais
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La Nación Data é a unidade de jornalismo de dados da LA NACION na Argentina. Desde 2011, quando foi lançado como uma iniciativa de jornalismo de dados abertos, sua estratégia era a mesma: fazer jornalismo de dados E abrir dados: promover o uso e o acesso a informações no país como evidência para manter os governos responsáveis, aumentar a transparência e permitir a colaboração dos cidadãos no processo de jornalismo (o que fez em diversas ocasiões).

Sua história começou em 2010, quando o repórter político Diego Cabot recebeu um vazamento com enorme potencial: um CD com 26.000 e-mails do ministro dos Transportes da então presidente,  Cristina Kirchner. Durante duas semanas, quatro jornalistas do jornal examinaram milhares de documentos à mão. Mas o então gerente de TI do jornal, Ricardo Brom, construiu um mecanismo de busca que permitiu vasculhar os documentos de maneira automatizada, e então eles conseguiram sua primeira informação em 40 minutos. A experiência foi o estopim para transformar o caminho deste que veio a se tornar a maior referência em jornalismo de dados da América Latina: a experiência mostrou à direção que aproximar a área de tecnologia da editorial poderia render bons frutos (confira mais detalhes aqui).

Enquanto veículos de mídia enxugam custos e demitem jornalistas, o La Nación viu no investimento em uma unidade de jornalismo de dados um caminho de sucesso para produzir conteúdo diferenciado e de qualidade para suas várias plataformas, que em 2020 completa 150 anos de atuação, anunciou ter superado a marca dos 200 mil assinantes digitais. Para se manter na vanguarda do jornalismo de dados, treinamentos, hackatons, conversas com especialistas e participações em eventos internacionais de dados abertos fazem parte da rotina da equipe, que coleciona prêmios nacionais e internacionais, incluindo o prestigioso Data Journalism Award, o Oscar da área - no qual, desde a primeira edição da premiação, em 2012, o jornal marcou presença como finalista todos os anos e saiu vitorioso quatro vezes consecutivas - de 2013 a 2016.

□ O potencial do Jornalismo Investigativo

Embora não deixe de ter as vulnerabilidades do jornalismo tradicional, para os defensores do jornalismo de código aberto, a transparência narrativa é crucial para a credibilidade da prática, além de ter se provado útil quando seus praticantes são atacados pelos governos que investigam.

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Fontes Consultadas

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
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Jornalismo de Dados

O uso de dados aumenta a credibilidade e qualidade das notícias

A revolução da incorporação de dados no cotidiano jornalístico permite a produção de informações mais valiosas, confiáveis, completas e adaptadas à modelos visuais que facilitam a compreensão de evidências pelos leitores.

Navegue Bem | Caso não saiba o que são dados abertos, aproveite primeiro as seções que explicam o assunto (as noções básicas e a História no País). Além disso, listamos aqui o tronco essencial das principais plataformas, mas dedicamos seções especiais para detalhar ainda outras, voltadas para Fiscalização Cidadã, Finanças Públicas, Eleições, e também iniciativas colaborativas da sociedade civil

Com a evolução do acesso aos dados públicos e da maior transparência dos governos, os profissionais de imprensa vivem hoje uma mudança importante: saíram de um ambiente com certa escassez de dados públicos para, agora na internet, ter à disposição muito mais do que conseguiriam analisar sozinhos. O Brasil é o 8º país no ranking mundial de dados abertos governamentais, e a cada dia, mais são abertos e coletados por movimentos de think tanks e acadêmicos, empreendedores cívicos, ou ainda obtidos por repórteres por meio de solicitações da Lei de Acesso à Informação (embora nem sempre sem batalha). Atualmente já se pode até mesmo monitorar respostas a pedidos, seja através de iniciativas da sociedade (como o projeto 'Achados e Perdidos' da Transparência Brasil/Abraji), ou através de um buscador oficial, fornecido pela Controladoria Geral da União (órgão condutor da política nacional de dados abertos) - que ainda mantém um painel especial de vigilância do cumprimento da Lei pelos órgãos federais.

 

Essa grande quantidade de informações tem potencial de servir como uma fonte para alavancar a qualidade do trabalho jornalístico. Embora a prática de utilizá-los não seja nova, o volume de dados surgido na última década é algo sem precedentes na história - e essa enorme profusão disponível também precisa de sentido, especialmente em nível local. Além do catálogo federal, o portal de dados de Recife, o primeiro de uma capital no país, contém mais de 240 bases. A apuração de gastos públicos em diversos aspectos ainda conta com um outro universo apresentado à população pelo Tribunal de Contas.

Nesse cenário, o jornalismo de dados tem se fortalecido como nunca e é a tendência para o futuro. Em uma época de polarização e que a imprensa enfrenta desconfiança, esse método de produzir notícias ganha ainda mais importância para encontrar fatos exclusivos e manter vivo o papel de ‘’guardião da sociedade’’ da imprensa. Pode iluminar o caminho para nós, trazendo evidências à luz de uma maneira acessível contribuindo para uma maior e mais qualificada compreensão da realidade através de uma abordagem mais aproximada da ciência e menos do espectro da opinião e disputa de narrativas.

 

O desafio é que para obter informações consistentes e inteligíveis, é preciso aliar ferramentas tecnológicas ao faro jornalístico, que permite encontrar histórias escondidas por trás dos números. Por isso, os jornalistas precisam se capacitar para aprender a identificar dados importantes, relacionar diferentes fontes e extrair conclusões significativas da investigação. Nesta parte tentamos construir um guia didático com as principais referências mundiais e brasileiras, na torcida que ele possa ser útil na jornada - para os destaques nacionais, reservamos também uma seção com conteúdo mais aprofundado. Qualquer sugestão de conteúdo é bem-vinda e pode ser feita em nosso espaço de feedback!

□ História e Panorama

Revelar ao mundo algo que lhe interessa profundamente e que até então ignorava, mostrar-lhe que foi enganado em algum ponto vital a seus interesses temporais ou espirituais, é o maior serviço que um ser humano pode prestar a seus semelhantes." (John Stuart Mill)

Como podíamos esperar, a prática do uso de dados para incrementar a reportagem é tão antiga quanto a própria existência dos dados. Como Simon Rogers aponta, o primeiro exemplo de jornalismo de dados no The Guardian (jornal precursor inglês) remonta a 1821. Foi uma lista, obtida de fonte não oficial, que relacionava as escolas da cidade de Manchester ao número de alunos e aos custos de cada uma. De acordo com Rogers, a lista ajudou a mostrar o verdadeiro número de alunos que recebiam educação gratuita, muito maior do que os números oficiais revelavam.

Outro exemplo seminal na Europa vem da fundadora da enfermagem moderna - Florence Nightingale, em seu relato histórico fundamental, “Mortalidade no Exército Britânico”, publicado em 1858. Em exposição ao Parlamento, ela usou gráficos multicoloridos para defender o aperfeiçoamento do serviço de saúde do exército britânico. O mais famoso é o seu gráfico ''crista de galo'', uma espiral de seções em que cada uma representa as mortes a cada mês, que destacava que a imensa maioria das mortes era consequência de doenças preveníveis em vez de tiros.

Jornalistas também usaram dados para manter o poder responsável por séculos, como atesta uma investigação conduzida por dados em 1848 que descobriu gastos excessivos de políticos, incluindo o então congressista Abraham Lincoln, posteriormente um dos presidentes dos EUA. A sua prática combinada ao faro investigativo resultou em diversas reportagens premiadas pelo Pulitzer, e mudança da atuação do poder público através de medidas legislativas originadas em apurações sobre ações governamentais, como prova o histórico do Washington Post ao longo dos últimos anos (conheça outros casos interessantes aqui).

Jornalismo de dados (ou jornalismo guiado por dados) como o conhecemos atualmente é um termo que surgiu na metade da década de 2000 e que se refere às práticas jornalísticas que utilizam dados como base para gerarem notícias - foi utilizado pela primeira vez pelo desenvolvedor de software Adrian Holovaty, em 2006, no artigo “A fundamental way newspaper sites need to change”, em que  expressa a importância de usar técnicas de gerenciamento de dados na redação dos jornais, advogando a necessidade de o jornalista se capacitar para explorar o Big Data. No cenário hiper-tecnológico de hoje, o caminho predito por Holovaty tornou-se indispensável.

 

Apesar do termo ter sido cunhado recentemente, pode ser considerado um desenvolvimento de outros dois conceitos: jornalismo de precisão (JP) e reportagem assistida por computador (RAC) - propostos entre o final da década de 1960 e início de 1970, que surgiram no contexto dos avanços tecnológicos (o projeto de 2011, Reading the Motins do Guardian, chegou a aplicar as técnicas de relatórios assistidas por computador de Philip Meyer na década de 1960 a um surto de violência em toda a Inglaterra, um ano antes da publicação da primeira edição do Manual de Jornalismo de Dados, que sistematizou de maneira pioneira essa nova maneira de trabalhar e contar histórias inovadoras).

Apesar de todas as dificuldades, nos últimos 10 anos, o jornalismo de dados passou de um exercício de reportagem de nicho para se tornar uma parte essencial das redações em todo o mundo. E, ainda que o jornalismo de dados tenha sido realizado informalmente por profissionais de reportagem assistida por computador durante décadas, o primeiro uso da abordagem registrado por uma grande organização de notícias é o The Guardian, que lançou seu Datablog em março de 2009 (confira aqui uma entrevista sobre sua evolução, no olhar do fundador, o jornalista Simon Rogers). No ano seguinte, o modo como ele o e o também predecessor New York Times lidaram com grandes quantidades de dados divulgados pelo Wikileaks acabou por difundir e popularizar o termo. Esse período marcou também o início da revolução dos dados abertos com o lançamento dos primeiros portais de dados abertos governamentais do mundo: o Data.gov do governo dos EUA foi lançado em maio de 2009 com 47 conjuntos de dados, e em setembro, o Reino Unido lançou seu data.gov.uk.

Saiba Mais

Debate Configurações |  Com o objetivo de gerar notícias, como o processo de bases de dados está sendo implantado no Brasil? A incorporação dessas técnicas no cotidiano das redações, com a função de facilitar o trabalho diário da reportagem, é eficiente?

□ Diferenciais
  • Não são influenciáveis a interesses particulares (maior credibilidade);

  • Grande quantidade de fontes (dados abertos e/ou produzidos por órgãos públicos);

  • Aumenta a qualidade das produções e seu impacto social;

  • Evidências com base em dados e não em opiniões (aproximação com a ciência);

  • Transparência de produção (verificação e democratização);

  • Humanização por meio de um relato jornalístico de informações contidas em bases de dados cruas;

  • A visualização de dados ajuda a compreender melhor a história;

  • Abre espaço para colaborações de profissionais de outras áreas ou da sociedade;

  • Potencializa o jornalismo investigativo.

Tendo em conta que a informação de qualidade é a principal matéria prima da investigação jornalística, é fundamental que ela venha de fontes confiáveis e que não sejam influenciadas por interesses comerciais ou ideológicos. E o que pode ser melhor que os números para garantir uma origem mais isenta para os fatos? Ou seja, o jornalismo de dados é aquele em que são utilizadas estatísticas, mapeamentos e outras informações oficiais ou documentais que dão base para a formulação de reportagens. Além disso, ele proporciona um conteúdo mais rico e instigante para o leitor.

Hoje, as notícias estão fluindo à medida que acontecem, de várias fontes - testemunhas oculares, blogs, e o que aconteceu é filtrado por uma vasta rede de conexões sociais, sendo classificado, comentado e até frequentemente ignorado. É por isso que o jornalismo de dados é tão relevante. Reunir, filtrar e desenhar o que está acontecendo além do que os olhos podem ver tem um valor crescente. Citar e compartilhar os materiais de origem e os dados por trás da história é uma das estratégias básicas pelas quais o jornalismo de dados também pode melhorar o jornalismo. Confiança nas informações é o que todos nós procuramos. A sua metodologia consegue ajudar até mesmo em questões cotidianas - a compra de um carro, uma casa, decidir sobre uma trajetória educacional ou profissional na vida ou fazer uma verificação rigorosa dos custos para evitar dívidas - e também a analisar a dinâmica de uma situação complexa, como tumultos ou debates políticos, mostrar as falácias e auxiliar a encontrar possíveis soluções.

Segundo a experiente jornalista Sandra Crucianelli, há três marcas básicas do jornalismo de dados: "a primeira é que oferece ao público documentos de respaldo sobre os quais a reportagem se baseou, muitas vezes compartilhados a partir de uma plataforma externa; a segunda é que o repórter explica seus métodos para que seu trabalho resista à revisão crítica - o que significa que se um leitor ou outro jornalista fosse utilizar os mesmos documentos da mesma forma, chegaria à mesma conclusão. E, finalmente, inclui uma visualização adequada de dados, acompanhada por textos não muito extensos".

▫ Crowdsourcing

A abertura para colaboração (crowdsourcing) se tornou uma ferramenta de redação estabelecida com o jornalismo de dados e rendeu produções importantíssimas - como detalhes de gastos de parlamentares, um relatório contabilizando número de crianças e adolescentes que morrem devido à facas (escala de crimes), e até mesmo um mapeamento de atentados terroristas em Gaza. Um dos exemplos clássicos foi a depuração de dados de despesas de políticos publicada e aberta ao público pelo The Guardian (abaixo "Investigate your Mp's expenses"). Outro caso é o projeto "Government Salaries Explorer", do Texas Tribune, que coletou 660 mil salários de empregados públicos (!) e exibe em uma plataforma para os usuários procurarem e ajudarem a gerar matérias a partir dele. Projetos notáveis incluem ainda o preço da água (FR) e subsídios do transporte público na Argentina

 

Essa maneira colaborativa de trabalhar está no centro do que a equipe de dados faz. E torna o público de leitores central no processo de construção da história - tanto para ajudar a coleta de dados, quanto na disseminação, através da participação via mídias sociais interativas. Em vez de focar em números ou estatísticas, usa-se dados para encontrar os assuntos sobre os quais devem se reportar, onde fazer isso, com quem conversar e que perguntas fazer (assim prega o The Guardian). Algumas das melhores composições de jornalismo de dados podem não ter números.

Investigue as despesas do seu MP (The Guardian)

| A Visualização de Dados

A premissa principal do jornalismo de dados é apresentar com facilidade e limpeza as informações numéricas relacionadas ao tema do conteúdo, e a representação visual de dados faculta ao jornalista apoio para contar uma história complexa através de infográficos envolventes, permitindo uma melhor compreensão e avaliação do leitor, através de estatísticas e não em suposições ou versões pessoais, que muitas vezes são distorcidas pelas fontes convencionais das entrevistas. Exemplos de grandes veículos que apostam em conteúdo especial focado na visualização incluem a BBC, Guardian, Reuters, Washington Post, Wall Street Journal. O Guardian alimenta ainda um grupo no Flickr, com imagens dos infográficos produzidos. Outros modelos da prática podem ser encontrados ainda em projetos diversos de profissionais do campo da comunicação visual: as espetaculares palestras de Hans Rosling sobre a visualização da pobreza mundial com o Gapminder, por exemplo, atraíram atenção sobre esse importante tema em todo o mundo, gerando novas perspectivas. E o trabalho popular de David McCandless para aclarar grandes números - como contextualizar os gastos públicos ou a poluição - mostra a importância do design claro em Information is Beautiful.

À medida que os dados se tornam mais centrais em nossas vidas pessoais e profissionais, a prática de desenvolver visualizações se torna cada vez mais importante. A Data Visualization Society busca coletar e estabelecer as melhores práticas, propiciando uma comunidade que apoia os membros e profissionais em seu desenvolvimento de habilidades. Em nossa Videoteca temática, reunimos um vídeo recente que explica sua atuação, assim como outros didáticos para os mais interessados no assunto:

Videoteca

□ Caminhos de um Jornalista de Dados: Primeiros Passos 

Não é necessário ter um diploma em estatística para ser jornalista de dados. Você nem precisa ser jornalista - qualquer pessoa com um blog (ou conta Medium) pode relatar histórias com dados. Se essas histórias o inspiram a experimentar o jornalismo de dados, há muitos recursos que ensinarão o básico. Os dados podem ser a fonte do jornalismo de dados ou a ferramenta com a qual a história é contada - ou ambos. O que diferencia essa prática de jornalismo do restante? Talvez sejam as novas possibilidades que se abrem diante da combinação do tradicional 'faro para notícias' e a capacidade de contar uma história convincente, com a enorme escala e variedade de informações digitais agora disponíveis - e elas podem surgir em qualquer estágio do processo jornalístico.

Por isso, o mais importante é ainda pensar na história. É sobre contar a história da melhor maneira possível. Às vezes, isso será uma visualização ou um mapa, outras, só divulgar algum número - é a flexibilidade de procurar novas formas de contar histórias. "Você pode se tornar um codificador de excelência, se quiser. Mas a tarefa maior é pensar nos dados como jornalista, e não como analista. O que é interessante sobre esses números? O que há de novo? O que aconteceria se eu misturasse com outra coisa? Responder a essas perguntas é mais importante do que qualquer outra coisa" - esclarece o vanguardista Simon Rogers.

Claro que, em vez de se propor um tema de investigação e depois partir para a busca ativa das informações, os editores e repórteres também podem mergulhar em acervos de dados coletados e identificar lacunas ou pontos de conexão que valem ser explorados com mais profundidade - sendo, portanto, uma análise de dados que dá início à produção de notícias. Mas como os jornalistas podem lidar tão bem com os números, mesmo com formação em humanas? Apesar de ser necessária uma capacidade analítica razoável para produzir notícias orientadas a dados, a resposta do sucesso está na série de ferramentas e recursos digitais que as empresas de comunicação têm sabido aproveitar para guiar suas iniciativas - além de uma constante capacitação e reorganização de equipes. Como ele representa a convergência de áreas diferentes que são independentes entre si – desde pesquisa investigativa e estatística, até design e programação, o êxito passa pela ideia de combinar essas habilidades para contar histórias importantes. Afinal, quem conseguiria fazer tudo isso sozinho?

| Cláudio Weber Abramo e José Roberto de Toledo, duas grandes referências brasileiras, explicam os primeiros passos para começar a trabalhar com jornalismo de dados.

Para desenvolver conteúdos a partir de dados, o jornalista substancialmente precisa levar em consideração uma série de fatores: 1) fazer a análise de dados; 2) contar com ferramentas e profissionais de programação e matemáticos - para fazer a mineração dos dados; 3) desenvolver uma apresentação criativa e detalhada (assim eles podem ser bem visualizados e interpretados pelos leitores). Confira abaixo um modelo simples, ou um mapa visual do processo de produção do Guardian Datablog aqui.

 

Mergulhar em plataformas que já disponibilizam bastante conteúdo (como os portais de dados abertos) e também participar do ecossistema de tecnologia do estado pode ajudar a conhecer mais ferramentas, como o Python. Atualmente também já existem poderosas ferramentas gratuitas de visualização e limpeza de dados, como Open Refine, Google Fusion Tables, Many Eyes (da IBM), Datawrapper, Tableau Public, entre outras (veja uma apresentação sobre opções aqui). Nos EUA há redações como o Texas Tribune e a ProPublica, que começaram a criar operações em torno de dados públicos. O conhecimento sobre coleta de informações - como fazer uma boa pesquisa, limpeza e visualização de dados, também é transformador para o profissional que quiser exercer o jornalismo de dados.

  • O que muitos especialistas em jornalismo de dados ressaltam é que, antes de qualquer coisa, devemos lembrar que a finalidade é contar uma história. Levin destaca que construir algo primeiro é realmente uma ferramenta de aprendizagem mais valiosa – e mais divertida – que programar por programar. Comece com um projeto específico em mente e siga a partir dele;

  • Compreender as estatísticas básicas é uma habilidade vital para qualquer jornalista que trabalha com dados. Como jornalista de dados, sua compreensão e senso de dados são tão valiosos quanto suas habilidades, se não mais. Uma organização de notícias sempre pode contratar um estatístico ou desenvolvedor, um papel fundamental para um jornalista de dados é saber o que é possível, gerar ideias e saber quando se aprofundar - ou seja, ainda é baseado na análise e na exploração de novas áreas de informações e investigação e não substitui o jornalismo tradicional: agrega valor a ele;

  • Comece pelo Básico: Embora os resultados sejam excitantes, o processo de programar não é. Felizmente, uma das ferramentas mais básicas do jornalismo de dados é a humilde planilha.  Especialistas entrevistados para o Manual de Jornalismo de dados regularmente citaram o Excel e o Google Spreadsheets como algumas das ferramentas mais utilizadas em suas atividades diárias.  Há muitas direções que pode seguir com seu projeto de dados sem a necessidade de escrever qualquer código. Google Fusion Tables permite mesclar duas planilhas ou arquivos CSV para visualizar dados em tabelas, gráficos e até mesmo mapas interativos. Embora ainda esteja em beta, o Google Fusion Tables é muito usado por grandes nomes como o Guardian Data Blog para suas visualizações.

| Raspagem de Dados

“Raspagem de dados é como se chama o método para extrair os dados escondidos em documentos como páginas da web e PDFs e torná-los usáveis, possíveis de serem processados. A raspagem de dados é uma das habilidades mais úteis se você vai investigar dados, e na maioria da vezes não é algo muito difícil” Escola de Dados

Trabalhar com dados é como entrar em um território vasto e desconhecido. Usá-los em reportagens permite encontrar histórias mais escondidas e criar visualizações que envolvam mais o público. Mas primeiro, você precisará dos números em um formato fácil e utilizável: precisará "raspar" os dados dessas fontes e, em seguida, convertê-los em um formato que viabilizará pesquisar, classificar e filtrar as informações. À primeira vista, dados brutos são intrigantes e difíceis de manejar - por isso, seu desenvolvimento requer também o olhar de jornalistas experientes, que tenham a competência precisa para esses exames muitas vezes confusos e entediantes e detectar as histórias ocultas.

 

Existem muitas maneiras de coletar dados e tutoriais bastante esclarecedores sobre como fazer sua raspagem (confira um da Escola de Dados aqui). Há diversas ferramentas simples e gratuitas que não exigem conhecimento de programação ou codificação para usar (essa última opção basicamente permite uma liberdade na criação de soluções a partir do zero). O procedimento não precisa ser algo complexo ou intimidador e pode ser extremamente vantajoso para encontrar panoramas dissimulados que, de outra forma, passariam despercebidos. A inteligência artificial, ou aprendizado de máquina, tornou-se também uma ferramenta para o jornalismo de dados, como evidenciado pelo trabalho de Peter Aldhous no Buzzfeed. Enquanto isso, o acesso às novas tecnologias, como Realidade Virtual e Aumentada, é capaz de oportunizar que designers mostrem dados em notícias e de maneiras mais interessantes, tornando uma história real e visceral ao público.

A técnica com que organizações de mídia lidaram com as grandes quantidades de dados vazadas publicamente (como Guardian e New York Times no caso Wikileaks) foi algo decisivo para consolidar o jornalismo de dados. Com as ocasiões dos últimos anos, o termo começou a ter um uso mais amplo, para descrever como os jornalistas estavam usando os dados para melhorar sua cobertura e aprofundar investigações sobre um determinado tópico. Empregar programação para automatizar o processo de coleta e combinação de informações de governos locais, da polícia e outras fontes cívicas (como Adrian Holovaty fez nos projetos ChicagoCrime e EveryBlock ou o The Telegraph fez com as despesas dos deputados usando um software para encontrar conexões entre centenas de milhares de documentos) já é uma prática tradicional.

  • Você também pode começar a explorar web scraping sem um profundo conhecimento de programação. Web scraping permite recolher informações a partir de sites com uma determinada quantidade de automação (em outras palavras, não ter que copiar/colar cada pequena coisa que você está procurando). ProPublica montou um Manual de Scraper que traz excelentes recursos para iniciantes que querem começar a raspar site e bancos de dados para obter informações para as suas histórias. Um web aplicativo livre para Chrome chamado Table Capture permite que você copie rapidamente tabelas de sites e cole-as em outra planilha. Além das orientações gerais da Escola de Dados, o Centro Knight também reuniu uma lista de ferramentas de raspagem de dados para “libertar” planilhas presas em arquivos PDF;

  • Observando todas as combinações de formatos de dados, ferramentas e abordagens editoriais, pode-se depreender que que cada profissional é um universo de capacidade em si, e que o potencial individual de lidar com essas ferramentas e as diferentes formas de utilização geram atuações singulares - difícil encontrar performances padronizadas e idênticas dentro de uma mesma redação;

  • No Brasil para quem tiver interesse em um bom caso de exploração de dados públicos, o 9 de Julho é um projeto em raspagem e formatação de dados da AssembleiaSP. Projeto open-source de agregação de info pública dos parlamentares e servidores da casa.

□ Guias Importantes

Não há ainda treinamento formal em jornalismo de dados nas universidades brasileiras, com algumas exceções curriculares, através de disciplinas que proporcionem conhecimentos introdutórios. Portanto, os futuros jornalistas de dados precisam investir, principalmente em tempo, para obterem sua própria qualificação e expertise, especialmente considerando que sua prática dedica tanta — às vezes, até mais — atenção aos dados propriamente ditos em vez de apenas empregá-los como forma de descobrir ou melhorar uma reportagem. Por isso, vemos o Datablog do The Guardian e o jornal Texas Tribune publicando conjunto de dados lado a lado com as notícias – ou até mesmo apenas os dados sozinhos — para as pessoas analisarem ou explorá-los por si mesmas se assim desejarem.

 

Associações e entidades de classe ajudam a prover conteúdos específicos de orientação, como a AmericanPress (EUA) e o CCCBLAB (ES). O jornalismo de dados exige capacitação permanente e aprendizagem de assuntos que estão geralmente longe das preferências do jornalista convencional. As fontes tradicionais não são suficientes: é preciso entender o funcionamento da administração pública, saber interpretar leis, decretos e orçamento público. Se um jornalista não tem discernimento de como as instituições do seu país funcionam, dificilmente pode seguir o caminho com sucesso. Certa fluência em inglês é um fator importante, já que as ferramentas mais utilizadas estão nesse idioma.

| Cursos Virtuais 

  • Escola de Dados

Em seu maior e mais completo curso online aberto e massivo (MOOC, na sigla em inglês), o Centro Knight de Jornalismo nas Américas se uniu à especialistas para ensinar aos alunos como produzir histórias atraentes usando dados e visualização. O objetivo do curso é cobrir o passo a passo de produção de uma reportagem de jornalismo de dados, reunindo, organizando e limpando os dados, transformando-os e depois explorando-os, tentando encontrar possíveis histórias potenciais. 

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Para os jornalistas brasileiros, o curso foi desenvolvido em parceria com a Escola de Dados - uma rede global fomentada pela Open Knowledge que ajuda organizações sociais, jornalistas, agentes públicos e cidadãos a tirar o máximo proveito dos dados para resolver problemas reais em prol de sociedades mais conscientes, sustentáveis e justas. Esta página de recursos apresenta o conteúdo na íntegra do MOOC “Introdução ao jornalismo de dados: Como entrevistar dados para reportagens investigativas”, realizado pelo Centro Knight para o Jornalismo nas Américas. A formação em português de cinco semanas aconteceu 5 de agosto - 8 de setembro de 2019. Agora,  o conteúdo está disponível gratuitamente para qualquer pessoa interessada em aprender sobre os conceitos básicos de Jornalismo de Dados. Ministrado por quatro reconhecidos profissionais: Natália MazotteAdriano BelisárioÁlvaro Justen e Rodrigo Menegat, o material do curso inclui aulas em vídeo e tutoriais, leituras, exercícios e muito mais.

  • DataJournalism

O DataJournalism.com foi criado pelo Centro Europeu de Jornalismo após 10 anos de experiência na execução de programas de jornalismo de dados. É apoiado pelo Google News Initiative e oferta aos jornalistas de dados recursos gratuitos, materiais, cursos em vídeo on-line e fóruns da comunidade.

  • New York Times

Numa forma vantajosa de capacitar seus jornalistas para a produção de matérias e conteúdos sempre refinados, o New York Times já há algum tempo mantém ativo um curso de codificação para sua equipe de jornalismo. Mesmo em redações menores, dedicar tempo para ensinar habilidades de dados a alguém traz benefícios a longo prazo. Mas, pode ser difícil e demorado criar materiais adequados, especialmente se o desenvolvimento de programas de treinamento não for sua única função. Assim, o jornal resolveu dar um passo extra em prol do coletivo profissional e disponibilizou todo o curso de forma gratuita na rede, permitindo que qualquer um aprenda o básico do meio e se vire minimamente na hora de ajudar a construir um mundo melhor. Entre outros temas, as aulas ensinam o básico de Google Docs e Sheets, questões éticas do jornalismo de dados e atalhos para a construção e análise de tabelas e planilhas.

□ Referências Globais

Não apenas no The Guardian, mas nas redações de todo o mundo, em todos os lugares e continentes, os jornalistas estão procurando publicar histórias aproveitando o avanço da cultura de abertura de dados. Em 2020, The Washington Post criou um laboratório de P&D em jornalismo político computacional para aumentar sua cobertura das campanhas para as eleições deste ano nos EUA. Na área de economia, incluímos abaixo dois grandes exemplos no assunto, mas outros ainda existem, como a Business Insider, e o Chart of the Day, da CNBC. Os jornais estadunidenses estão claramente começando a perceber que os dados são uma mercadoria pela qual pode-se comprar confiança do consumidor (como ilustram os Wall Street Journal, Boston Globe, Las Vegas Sun, The New York Times, Los Angeles Times) e ainda em outros países, La InformaciónDatadista e ElPaís (Espanha), La Nación na Argentina, Zeit Online (Alemanha), Telegraph (UK - saiba mais sobre ele aqui), e até coletivos na África.

 

Isso não deve ser visto como um desenvolvimento isolado no campo do jornalismo. Esses foram também os efeitos de grandes desenvolvimentos na transparência internacional, após campanhas como as realizadas pela Open Knowledge Foundation e entidades civis, além da criação de portais de dados abertos. No Brasil, o jornalismo de dados começou a engendrar em 2012, com dois blogs dentro de grandes meios de comunicação, o FolhaSPDados e o Estadão Dados (que continua ativo). Em todos, a lição que fica é que seus projetos e matérias focam no desafio de fornecer acesso a dados nos quais haja um claro interesse público

O maior alcance à poderosas ferramentas gratuitas de visualização e limpeza de dados combinadas com a liberação de muitos dados públicos gratuitos facilitou a produção de notícias com sua utilização, levando ainda ao surgimento de redações especializadas, como o Texas Tribune e a ProPublica, que começaram a criar operações em torno de sua exploração (confira uma série de outros bons exemplos aqui). Hoje, os comunicadores que realizam o jornalismo de dados contam com um "lar virtual" especial, o DataJournalism.com, para ajudar aqueles que estão começando e onde todos, desde o praticante solitário até o membro de uma grande equipe, poderão encontrar algum apoio. O histórico das premiações do Data Journalism Award mostra uma variedade de como pode ser bem feito.

▫ Rede Europeia

A Rede Europeia de Jornalismo de Dados (EDJNet), criada em 2017, é uma rede de organizações independentes de mídia e redações de dados que produzem e promovem a cobertura orientada a dados de tópicos europeus em 12 idiomas (inclusive português). A rede reúne jornalistas, desenvolvedores e especialistas em políticas. Funciona como uma comunidade colaboradora, um agregador de notícias e um centro de aprendizagem - possuem diversas ferramentas para auxiliar os profissionais, dentre elas um poderoso motor de busca multilíngue para pesquisa de dados no Portal Europeu de Dados Abertos:

| O exemplo do The Guardian

O Guardian, jornal nacional britânico, fundado há quase 200 anos, foi pioneiro ao criar um departamento de Desenvolvimento Digital com um punhado de pequenas equipes, formulando notícias abertamente, no GitHub. Hoje, o Guardian tem cinco editores de dados e jornalistas trabalhando nos três escritórios internacionais (nas cidades de Londres, Nova York e Sidney), com boa parcela da equipe composta por mulheres. O termo jornalismo de dados se tornou popular desde a última década com a chegada do seu Datablog, lançado em março de 2009, começando em um canto do website do jornal, dedicado à publicação e análise de dados e inicialmente com 200 conjuntos de dados distintos: taxas de criminalidade, indicadores econômicos, detalhes da zona de guerra e até semana da moda e vilões do Doctor Who.

 

Desde então, aplicaram a abordagem com dados a tudo. Na última década, publicaram milhares de histórias e conjuntos de dados sobre os mais variados tópicos impactantes: o escândalo das despesas dos deputados do Parlamento e também o do Panamá Papers (para o qual tiveram que montar a própria base de dados), projetos em código aberto de fiscalização de despesas públicas, os tumultos na Inglaterra em 2011 (Reading the Motins - onda de protestos que marcou o país), eleições, crimes com faca, preços de casas, os vazamentos de informações sobre a Guerra do Afeganistão e a Guerra do Iraque, mapear a alta administração pública, e até mesmo como o Reino Unido se saiu em todos os concursos de músicas do Eurovision. O protagonismo teria começado com uma ideia simples: publicar dados em um formato que seria mais fácil para outras pessoas usarem.

A sua forma de divulgação aberta através de dados brutos para que os parceiros reutilizem por meio de uma API, permite a obtenção de todo o conteúdo que o The Guardian cria, facultando ainda que os usuários criem aplicativos externos em troca da veiculação de publicidade do próprio jornal e se tornou um modelo referencial. Artigos do seu editor fundador podem esclarecer melhor as práticas e perspectivas adotadas nessa trajetória e também seus bastidores. A abertura para colaboração (crowdsourcing se tornou uma ferramenta de redação estabelecida) é uma delas e rendeu apurações importantíssimas - como detalhes de gastos de parlamentares e um mapeamento de atentados terroristas em Gaza

| O exemplo do The New York Times

Em 2018, a equipe de Transição Digital do Times decidiu analisar como poderiam ajudar a aumentar o conhecimento dos dados dos repórteres para melhorar as coberturas. O caminho adotado foi envolver toda a equipe de jornalistas e editores em um processo de treinamento de quase um mês, além de manter uma coordenação de apoio para produção de reportagens abordando as técnicas aprendidas, ao longo dos dois meses posteriores, assegurando o sucesso do processo de capacitação (leia mais sobre como o treinamento de dados foi desenvolvido e faça o download dos materiais de treinamento).

Em sua maioria, as reportagens guiadas por dados são focadas em política ou economia. Porém os cadernos de ciência também podem se beneficiar da abundância de dados coletados nas pesquisas científicas. Um bom exemplo vem do The New York Times, que criou um time de análise e visualização de dados dedicado a cobrir as mudanças climáticas. A equipe liderada por Hanna Fairfield, que possui formação em jornalismo e geoquímica, já criou matérias impressionantes, como a que simula as linhas de derretimento de gelo na Antártida ou ilustrando a expansão de dias muito quentes no globo. O jornal mantém uma página onde centraliza matérias com a abordagem em dados - não deixe de conferir uma com depoimentos de 5 repórteres descrevendo as várias maneiras pelas quais se valeram de conjuntos de dados e planilhas para uma composição ímpar.

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▫ Repórter Milionário

O repórter Nate Silver ganhou visibilidade mundial ao fazer previsões sobre os resultados das eleições presidenciais norte-americanas de 2012 com uma precisão que surpreendeu até mesmo os especialistas em sondagens de opinião pública. Seu nome também ganhou notoriedade por ser a primeira grande contratação registrada na imprensa mundial envolvendo um profissional especializado em jornalismo de dados (Big Data Journalism): Nate trocou seu emprego no New York Times para aceitar uma remuneração milionária na rede de TV ESPN, no ano seguinte. O segredo é sua habilidade em trabalhar com grandes volumes de dados usando a matemática, estatística e os cálculos probabilísticos (confira um entrevista aqui).

| O exemplo da BBC

O site da BBC News usa dados para fornecer serviços e ferramentas há mais de duas décadas. O exemplo mais consistente, publicado pela primeira vez em 1999, foram as tabelas de classificação das escolas, com dados publicados anualmente pelo governo - os leitores podiam encontrar escolas locais inserindo um código postal e compará-las em vários indicadores e na época, não havia website oficial que permitisse ao público interrogar os dados. Além de fornecer maneiras de explorar grandes conjuntos de dados, também possuem uma trajetória de sucesso na criação de ferramentas simples para usuários que fornecem trechos de informações pessoalmente relevantes -  um exemplo é a calculadora de orçamento (criada em uma parceria com a empresa de contabilidade KPMG), que permite cada leitor descobrir quão melhores ou piores estarão suas finanças quando o orçamento entrar em vigor - e depois compartilhar esse número. 

Estratégia | Formar parcerias com jornalistas investigativos, e dotados de conhecimentos especializados, visando facilitar a compreensão de informações encontradas e a produção de conteúdo é uma de suas estratégias. A equipe é composta por jornalistas, designers e desenvolvedores. Em 2017, a BBC estabeleceu um divisor de águas em seu planejamento, estabelecendo uma parceria de pesquisa de cinco anos com oito universidades do Reino Unido para desbloquear o potencial de dados na mídia até 2022. A Parceria de Pesquisa em Ciência de Dados pretende estar na vanguarda da indústria da mídia, ajudando a criar na BBC mais potencial informar, educar e entreter de novas maneiras. Saiba mais sobre os bastidores aqui ou nesta entrevista. A emissora também oferece uma plataforma de cursos online para treinamento e desenvolvimento projetados para apoiar jornalistas, a BBC Academy. Mais conteúdo pode ser encontrado em nossa videoteca.

| O exemplo do Financial Times e The Economist

O Financial Times é uma das principais organizações de notícias de negócios do mundo, reconhecida internacionalmente por sua autoridade, integridade e precisão - tem um recorde de leitores pagantes de um milhão, três quartos dos quais são assinaturas digitais. Em 2019, reforçou o time de jornalismo de dados, que atua há pelo menos 5 anos, disponibiliza suas bases de trabalho e possui um perfil de acompanhamento no Twitter.

Já no Economist, a equipe de jornalismo de dados foi criada em 2015, em parte como uma resposta à popularidade de seu blog diário de gráficos e detalhes. O jornal cria gráficos há cerca de 20 anos online e, desde sua primeira edição impressa, em 1843 (confira aqui as reflexões de criador de gráficos da equipe desde 1987). Em 2018, se concentrou em levá-los a um público mais amplo nas mídias sociais - através do perfil The Economist Data Team é possível ver infografias sobre os mais diversos temas diariamente. Também passaram a publicar seus dados em formato aberto.

| O exemplo do La Nación

La Nación Data é a unidade de jornalismo de dados do LA NACION na Argentina. Desde 2011, quando foi lançado como uma iniciativa de jornalismo de dados abertos, sua estratégia era a mesma: fazer jornalismo de dados E abrir dados: promover o uso e o acesso à informações no país como evidência para manter os governos responsáveis, aumentar a transparência e permitir a colaboração dos cidadãos no processo de jornalismo (o que fez em diversas ocasiões).

Sua história começou em 2010, quando o repórter político Diego Cabot recebeu um vazamento com enorme potencial: um CD com 26.000 e-mails do ministro dos Transportes da então presidente,  Cristina Kirchner. Durante duas semanas, quatro jornalistas do jornal examinaram milhares de documentos à mão. Mas o então gerente de TI do jornal, Ricardo Brom, construiu um mecanismo de busca que permitiu vasculhar os documentos de maneira automatizada, e então eles conseguiram sua primeira informação em 40 minutos. A experiência foi o estopim para transformar o caminho deste que veio a se tornar a maior referência em jornalismo de dados da América Latina: a experiência mostrou à direção que aproximar a área de tecnologia da editorial poderia render bons frutos (confira mais detalhes aqui).

Enquanto veículos de mídia enxugam custos e demitem jornalistas, o La Nación viu no investimento em uma unidade de jornalismo de dados um caminho de sucesso para produzir conteúdo diferenciado e de qualidade para suas várias plataformas, que em 2020 completa 150 anos de atuação, anunciou ter superado a marca dos 200 mil assinantes digitais. Para se manter na vanguarda do jornalismo de dados, treinamentos, hackatons, conversas com especialistas e participações em eventos internacionais de dados abertos fazem parte da rotina da equipe, que coleciona prêmios nacionais e internacionais, incluindo o prestigioso Data Journalism Award, o Oscar da área - no qual, desde a primeira edição da premiação, em 2012, o jornal marcou presença como finalista todos os anos e saiu vitorioso quatro vezes consecutivas - de 2013 a 2016.

| Google News Lab

O News Lab é uma Iniciativa do Google Notícias, cuja missão é colaborar com jornalistas e empresários para impulsionar a inovação nas notícias. Oferecendo parcerias e treinamentos (confira um básico sobre verificação  e jornalismo de dados aqui) em mais de 50 países, oferece o melhor da tecnologia do Google para enfrentar importantes desafios no jornalismo atual e fortalecer o jornalismo de qualidade.

Videoteca

□ O potencial do Jornalismo Investigativo

"Qualquer profissional interessado em analisar e expor o funcionamento da máquina pública, e eventuais desvios e irregularidades, precisa hoje em dia dominar ao menos algumas técnicas do jornalismo de dados", destaca o ex-presidente da AbrajiDaniel Bramatti.

 

A classificação do jornalismo investigativo como uma área especializada do jornalismo é motivo de controvérsias. Alguns jornalistas, especialmente os das antigas gerações, consideram que, por sua natureza, toda reportagem é investigativa, pois em essência envolve a apuração dos fatos, sua edição e posterior divulgação - Alberto Dines (falecido em 2018), comentando sobre o papel imprensa, declarou que: "Jornalistas não podem se intimidar com o berro de um general, agressões de policiais ou de quem quer que seja, mesmo que vindo de um presidente dos Estados Unidos (...) Todo jornalismo é investigativo, ou não é jornalismo". 

Documentadamente, desde a década de 60, jornalistas têm analisado bases de dados públicas com métodos científicos para fiscalizar o poder de forma independente, conforme mencionado no início desta seção. Prática originada e intensa nos Estados Unidos, um dos marcos do jornalismo investigativo foi o Caso Watergate (1974), quando dois repórteres do The Washington Post foram incansáveis em uma investigação que retirou do poder o ex-presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon. Também chamado de “jornalismo de interesse público”, defensores dessas técnicas baseadas no auxílio do computador têm procurado revelar tendências, contrariar o senso comum e desnudar injustiças perpetradas por autoridades e corporações.

No início dos anos 70, o termo jornalismo de precisão foi cunhado para descrever esse tipo de apuração: “o emprego de métodos de pesquisa das ciências sociais e comportamentais na prática jornalística” (em The New Precision Journalism de Philip Meyer). Sua conduta foi proposta para ser praticada nas instituições jornalísticas convencionais por profissionais formados em jornalismo e em ciências sociais - Meyer defendia que eram necessários métodos científicos para coleta e análise de dados, em vez de técnicas literárias, para permitir que o jornalismo alcançasse sua busca pela objetividade e verdade.

Tal dinâmica pode ser compreendida como reação a algumas das inadequações e fraquezas do jornalismo normalmente citadas: dependência dos releases de assessorias (mais tarde descrito como “jornalismo de batedeira”), predisposição em acatar as versões oficiais, e por aí vai. Estas são decorrentes, na visão de Meyer, da não aplicação de técnicas e métodos científicos como pesquisas de opinião e consulta a registros públicos. Foi uma forma de expandir o arsenal de ferramentas do repórter para tornar temas antes inacessíveis, ou parcialmente acessíveis, em objeto de exame minucioso e especialmente eficiente para dar voz à minoria e grupos dissidentes que estavam lutando para se verem representados.

▫ Na Era da Transparência

O jornalismo investigativo é conhecido, especialmente, por desvendar atos ilícitos, divulgar informações que poderes públicos pretendem esconder, mostrar como funcionam esses órgãos e relatar aos eleitores sobre o desempenho dos políticos. Documentos vazados e entrevistas como fontes de denúncia sempre farão parte do jornalismo investigativo. Mas, graças ao aumento da tecnologia digital e à fácil disponibilidade dos dados que os acompanham, os repórteres têm mais maneiras de obter histórias do que nunca. Com ênfase em fatos brutos, o jornalismo de código aberto ganha efetividade e confiabilidade no momento em que os leitores de todos espectros ideológicos se tornam céticos em relação à mídia. Embora não deixe de ter as vulnerabilidades do jornalismo tradicional, para os defensores do jornalismo de código aberto, a transparência narrativa é crucial para a credibilidade da prática, além de ter se provado útil quando seus praticantes são atacados pelos governos que investigam.

 

Entre os  exemplos notórios, o blogueiro Eliot Higgins provocou ondas no início da década, cobrindo a guerra na Síria a partir de um laptop em seu apartamento em Leicester, Inglaterra, enquanto cuidava de sua filha - em 2014, ele fundou a Bellingcat, uma agência de notícias de código aberto. Os registros de guerra do Wikileaks no Afeganistão foram uma vitória fantástica para o jornalismo investigativo, não apenas no Guardian, mas também no New York Times e Der Spiegel - e são também jornalismo de dados em ação, conforme destaca o editor to Guardian em artigo especial. A fusão do jornalismo de código aberto com métodos mais tradicionais pode ser vislumbrada ainda nos trabalhos da BBC (um deles o projeto Africa Eye), ONGs como a Anistia Internacional, e agências de notícias como a Storyful.

Debate Configurações |  Como é realizado no Brasil? Os jornalistas Fábio Bispo (freelancer, Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina e CatarinaLAB) e Lúcio Lambranho (Brasil Real Oficial), ambos catarinenses, têm se utilizado de plataformas de transparência para fiscalizar os atos dos governos e levantar denúncias contra gestões duvidosas e mau uso do dinheiro público. Suas reportagens já motivaram reações parlamentares e abertura de inquéritos, como o da compra de respiradores superfaturados em SC, comprovando a força do jornalismo investigativo com uso de dados públicos para bem informar e alertar a sociedade.

| Panama Papers

A maior investigação jornalística dos últimos anos e de repercussão para o jornalismo de dados, começou com uma mensagem anônima: "Interessados em dados? Partilho com prazer. Quero tornar estes crimes públicos". Um vazamento maciço de documentos expôs as participações offshore (em paraísos fiscais) de 12 atuais e ex-líderes mundiais, abarcando detalhes das transações financeiras ocultas ainda de mais 128 políticos e funcionários públicos em todo o mundo. O conjunto de 11,5 milhões de registros mostra como uma indústria global de escritórios de advocacia e grandes bancos vende sigilo financeiro a políticos, fraudadores e traficantes de drogas, bem como bilionários, celebridades e estrelas do esporte. Abrangendo um intervalo de tempo de quase 40 anos - entre a década de 1970 e o início de 2016, foi enviado por uma fonte anônima para o jornal alemão Süddeutsche Zeitung em 2015 e, posteriormente, para o Consórcio Internacional de Jornalistas de Investigação, que viabilizou sua distribuição e análise por cerca de 400 jornalistas em 107 entidades de comunicação social em mais de 80 países. As primeiras notícias sobre o caso, assim como 149 documentos (os dados tiveram que ser indexados de forma sistemática, usando até mesmo softwares e técnicas de investigadores internacionais), foram publicadas em abril de 2016 - hoje, um vasto acervo de publicações pode ser encontrado na página especial do ICIJ.

| Redes Globais

  • GIJN

A necessidade de um pelotão multinacional e sofisticado de repórteres investigativos nunca foi tão grande. Nós vivemos numa era globalizada, em que o comércio – e os crimes – são multinacionais. Atualmente, jornalistas investigativos estão trabalhando em mais de uma centena de países, seguindo pistas e se conectando com seus colegas de uma forma mais organizada e mais profunda do que nunca. A Global Investigative Journalism Network é uma associação internacional de organizações jornalísticas que apoia o treinamento (em vários idiomas, inclusive português) e o compartilhamento de informações entre jornalistas investigativos e jornalistas de dados – mesmo em regimes repressivos e em comunidades marginalizadas - a cada dois anos, a GIJN também realiza a Conferência Global de Jornalismo Investigativo. Foi fundada em 2003 e desde então, a rede cresceu para 182 organizações membro em 77 países.

  • ICIJ

O Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ), fundado em 1997 pelo jornalista americano Chuck Lewis, do Center for Public Integrity, é um grupo de 200 jornalistas que, em mais de 70 países, busca desenterrar delitos internacionais, corrupção e abuso de poder. A participação dos profissionais é apenas por meio de convite e não há remuneração. Sua sede é em Washington, capital dos Estados Unidos. Em 4 de abril de 2016, o ICIJ compartilhou 11,5 milhões de documentos compilados com mais de uma centena de jornais que expuseram negócios secretos em paraísos fiscais (offshore) realizados por poderosos líderes mundiais e celebridades do esporte e do show business: o Panama Papers. Seu banco de dados contém informações sobre mais de 785.000 entidades offshore que fazem parte dos inquéritos sobre os Panama Papers, Offshore Leaks,  Bahamas Leaks e Paradise Papers - abrangendo quase 80 anos até 2016 e links para pessoas e empresas em mais de 200 países e territórios. No Brasil, o ICIJ tem entre seus membros os jornalistas Natalia Viana, Fernando Rodrigues (Poder360), Angelina Nunes, Marcelo Soares, Claudio Tognolli, Guilherme Amado e José Roberto Toledo.

Que medidas os governos e reguladores de todo o mundo adotaram após o ICIJ publicar os Documentos do Panamá em 2016? Leia mais sobre o impacto dos Documentos do Panamá aqui.

  • Salud con Lupa

É uma plataforma digital para jornalismo colaborativo dedicado à saúde pública na América Latina. O Salud con Lupa é formado a partir de alianças entre jornalistas latino-americanos, a mídia e profissionais de diferentes disciplinas - tecnólogos, ilustradores, fotógrafos e médicos - interessados ​​em melhorar a qualidade das informações disponíveis para todas as pessoas. Por meio de investigações jornalísticas em vários formatos, combatem a proliferação de notícias falsas, denunciam as falhas do Estado e os abusos de poder por agentes privados, contribuindo para melhorar as condições em que os serviços de saúde são prestados e, assim, proteger um direito humano fundamental.

| Redações Especializadas

Fundada em 1989, a Public Integrity é uma das mais antigas redações sem fins lucrativos e apartidária que investiga democracia, poder e privilégios. Seus premiados relatórios se concentram na influência do dinheiro e no impacto da desigualdade na sociedade dos EUA e contribuíram para mudar centenas de leis e políticas, forçar o governo federal e estadual a divulgar informações públicas críticas e responsabilizar as empresas por abusos de poder. Outra iniciativa conhecida no país é a ProPublica, fundada em 2007 e com uma equipe de mais de 100 jornalistas dedicados, cobrindo uma variedade de tópicos de interesse público - sua produção de aplicativos, gráficos, assim como  banco de dados, é disponibilizada em uma página especial.

Fundada em 2011 por repórteres mulheres, a Pública é a primeira agência de jornalismo investigativo sem fins lucrativos do Brasil. Investigam a administração pública, incluindo todos os níveis de governo e as casas legislativas; os impactos sociais e ambientais de empresas, suas práticas de corrupção e de antitransparência; o Poder Judiciário, sua eficácia, transparência e equidade; e a violência contra populações vulneráveis na cidade e no campo. Possuem um programa de fomento ao jornalismo independente, através do qual realizam mentorias para jornalistas, concurso de microbolsas de reportagem, eventos de discussão sobre jornalismo e programas de apoio a projetos inovadores. Ao longo de trajetória conquistaram 48 prêmios.

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Fontes Consultadas

Para esta seção, os seguintes textos também foram consultados:

|  Jornalismo de Dados >

Data Journalism Handbook "What Is Data Journalism?", por Paul Bradshaw e "Why Journalists Should Use Data" por Mirko Lorenz e "Data Journalism in Perspective", por Liliana Bounegru;

Guia Prático do American Press Institute "Mergulhando no jornalismo de dados: estratégias para começar ou ir mais fundo" - por Samantha Sunne;

Artigo "Data journalism at the Guardian: what is it and how do we do it?", 28.07.11 - The Guardian DataBlog;

Entrevista "A decade of the Datablog: 'There's a human story behind every data point'", 23.03.19 - The Guardian DataBlog;

Artigo "Jornalismo de dados: o bom, o mau e o feio", 29.06.12, por Sandra Crucianelli - ICFJ International Center for Journalists;

Artigo "Data journalism: What it is, how you can do it and why it matters", 11.02.14, por Nicola Hughes - Press Gazette;

Artigo "Jornalismo de Dados amplia oportunidades do Jornalismo Científico", 09.04.18 - ComCiência, Revista Eletrônica de Jornalismo Científico;

Matéria "8 coisas que você precisa saber sobre jornalismo de dados", por Filipe Oliveira - Portal #TMJ da ESPM.

|  Jornalismo Investigativo >

"These Reporters Rely on Public Data, Rather Than Secret Sources", 01.12.19 - NYT.

| Créditos imagem Cláudio Weber Abramo: Aline Vergueiro/Abraji

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